Ode aos cabelos brancos

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As costas inclinadas de leve para a frente, os passos lentos que ainda tentam ser apressados e o olhar vago e perdido no horizonte revelam um velho mundo novo. O que será que está pensando nesse exato momento?

Será que ele continua em busca de algo ou talvez, quem sabe, esteja apenas apreciando o presente e tudo o que representa? Pode ser que esteja só resgatando lembranças de um passado agora distante, agarrando-se a histórias que não voltam mais, um meio de manter retalhos e memórias de sua vida vivas em sua mente.

Gosto de observá-lo.

Às vezes o vejo correndo pra cima e pra baixo, dando ordens em todo mundo, apontando como fazia as coisas no seu tempo. Às vezes o encontro sossegado lendo um livro na antiga cadeira de balanço – a nova não é macia o suficiente.

Ao vê-lo mais de perto, noto as rugas que agora emolduram o entorno dos olhos cansados, mas ainda azuis e bem vivos. Reparo também na mão gentil, a pele é um manto fino.

Imagino as rugas como caminhos. Gosto de pensar que cada linha é o resultado de algo feito de bom grado em sua longa vida.

Aos meus olhos juvenis, acredito que o que ele mais gosta de fazer para matar o tempo é sentar-se perto da janela, tomar um bom e quente chimarrão e admirar a vista diante de si. Ele passa horas fazendo isso. Quando não é isso, gosta de anotar os milímetros da última chuva ou ainda ver o que os mais novos estão aprontando.

Despertamos. Ele volta a caminhar. As mãos calejadas fazem um breve cafuné em minha cabeça na passada corrida até o quarto. O amor que ele sente é demonstrado assim, em gestos tão simples e cheios de carinho que me fazem sorrir.

A minha felicidade é quando ele diz: você é como uma filha pra mim, a dele eu ainda estou tentando descobrir.

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Autossabotagem

Delicadamente foi recolhendo algumas pedras e tijolos no meio do caminho. Muitos não eram para ela, mesmo assim os pegava. A cada peso novo, uma dor nova e um novo disfarce. Máscaras foram se formando por sobre a face delicada e esconderam temporariamente as expressões de medo e dor.

Aos poucos, aqueles mais persistentes, divertidos e atenciosos, foram removendo uma a uma as máscaras que a mantinham em um espaço criado como defesa. Lapidaram novamente o rosto meigo e verdadeiro daquela menina mulher. Expor-se assim ao natural novamente era desafiador e também libertador, há tempos não sentia a doçura da brisa tocar seu rosto. Tal experiência provocava êxtase. Depois de anos voltava a sentir-se viva.

Entrementes

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Como foi que chegamos até aqui? Nossa juventude escorreu por entre nossas mãos. As lembranças que tenho de você mostram-se tímidas através das sombras que se acomodaram sobre o lugar que você deixou cativo em mim.

Nossas mentes aflitas e desesperadas diante do vazio procuraram outros abrigos. Você encontrou. E eu continuei vagando. Com olhos marejados pelas palavras que você deixou ecoando em minha mente, segui em busca de algum refúgio. Nada.

A maioria de nós teve o coração partido, e você, bem, mesmo sem querer, partiu alguns, e agora está se apaixonando. Você não sabe o quão sortudo é. Nós, os azarados, seguimos incendiando nossas entranhas por diversão a fim de que, quem sabe, consigamos distrair nossos corações para não sentir saudade daqueles que um dia amamos. Tentei escapar, mas continuo afundando.

Corações congelados crescem com o tempo mais frio, não há calor saindo de nossas bocas e não quero que continue a ser assim. Nunca quis. Ninguém quer. Com o coração na garganta não direi nenhuma palavra, pois penso que você já sabe que não durmo desde o dia que saiu daqui. Até amanhã ficarei na escuridão, entre os lençóis frios da cama que era nossa. E, depois de algum tempo, diante do afastamento necessário para análises, entenderei o que você disse quando afirmou que quero tudo o que não me pertence.

Eu o quero.

Tudo o que eu queria, desde o início, era o seu coração, mesmo sabendo que não somos o certo.

É torturante o que existe entre nós dois, porque eu quero tanto você, mas te odeio até o último fio de cabelo. Essa dualidade é insuportável. Como pode ser possível conviver com sentimentos tão conflitantes?

Dói ainda mais saber que, apesar de tudo, você ainda acredita em mim. Acredita que eu posso ser quem eu quero. Eu deveria ter um pouco mais de confiança em mim, na minha pele, pois debaixo dela há um ser humano que é capaz de coisas inimagináveis.

Adèle
Junho de 2009

Fora da escuridão

Construiu um castelo no pequeno espaço entre a cômoda e a cama. Cheio de fitas e lenços, algum conforto no chão com almofadas e pelúcias, montou o espaço preferido: a torre.

Que lugar incrível.

A vista da torre era e seria tudo o que pudesse ser imaginado. Um espaço infinito entre a realidade e a ficção. Oportunidades mostravam-se diante daquele refúgio.

Quem poderia sonhar que num lugar tão pequeno coubesse o mundo inteiro.

Caixa de suvenir

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De forma doce e inesperada você guardou coisas que joguei fora. Uma folha de caderno com um desenho bobo, um cartão de aniversário que fiz e nunca enviei, um CD com músicas que já nem me lembro mais, mas que às vezes cantarolo pelos cantos o que te faz sorrir sem aviso.

Talvez tenhamos nos segurado demais nas lembranças, você e eu. Duramos tão pouco e agora não passamos de uma caixa de suvenir.

Isso é certo?

Talvez eu tenha me apavorado e você não tenha notado. Você estava feliz e eu entediada. Eu queria que você mudasse e você acreditava que as coisas caminhavam dentro do esperado. Eu buscava emoção e você sossego. Um o salto do penhasco, o outro a firmeza do chão.

Quando foi que passamos a caminhar em direções tão opostas?

Quando foi que eu me enchi de dúvidas e você ficou sem nem uma resposta?

Quanto mais você se aproximava, mais eu sabia que tudo iria mudar, meu amor. E não por falta de amor, muito menos de carinho… o fantasma de nossa história foi sempre o medo. Sensação que sempre nos podou e nunca permitiu que nos abríssemos da forma como gostaríamos.

Tantas noites contando estrelas, agora o que contamos são memórias em uma caixinha de suvenir.

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Àqueles que assumem ser mãe

Hoje é um daqueles dias que, além de ser uma data para encher as pessoas que amamos de mimos, nos faz refletir sobre o papel de mãe. É um dia dedicado a agradecer e valorizar todas as pessoas que assumem esse papel, sejam elas mães, pais, avôs, avós, responsáveis legais, madrinhas e padrinhos, amigos, tios, qualquer pessoa que entenda e exerça a função de proteger, educar, ensinar, alertar, cuidar, torcer e tudo mais que vem junto no pacote. Que todas as mães sejam amadas e valorizadas, que tenhamos paciência com os erros, pois nem tudo na vida é acerto, e se elas ou eles erram é porque estão tentando acertar por nós. Obrigada mamães e mamães, um dia é pouco para expressar o quanto vocês são importantes em nossas vidas!