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Às vezes um abraço,
outras vezes um beijo,
mas
na maior parte do tempo
o silêncio.
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Desse jeito

Não esconda essa cara amassada e nem a barba por fazer porque eu gosto de você assim quando acorda e olha pra mim e sorri e eu sorrio de volta porque não há nada melhor do que nós dois assim de cara lavada sorriso no rosto e um mundão de momentos inesquecíveis organizados com carinho nesse espaço que os cientistas insistem em chamar de caixa craniana e que nós apelidamos de grandioso baú de boas memórias.

a moça de flor no cabelo

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ela era uma menina engraçada
tinha flores brancas no cabelo, nada feito noiva,
mas como se dissesse aos outros quem ela era,
do tipo romântica, que acredita em finais felizes,
sejam eles reais ou não.

olhos fundos e azuis feito oceano,
do tipo que faz você querer mergulhar
e não se importar se vai conseguir chegar à tona a tempo de respirar.
mesmo sem o mergulho seu olhar já era de perder a respiração.

mãos delicadas dedilhavam um piano velho,
desses de bazar de garagem,
e a voz, puxa, a voz
a mais linda que já tinha ouvido.

a moça de flor no cabelo,
oceano nos olhos e
mãos macias
fitava-me sorrindo
e eu,
bobo,
não sorri de volta.

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Tem uma menina
dentro de mim
e ela insiste,
vive gritando assim:
Hei, acredita!
Tem saída.
Perdida.
Eu acredito.
Acredito sim
em você.
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só lá mi fá dó lá si: Norah Jones

Dezembro, a neve grossa cobrindo os passos, e cá estou, de volta à Manhattan. Depois de tanto tempo numa caça aos piratas, preso em uma perseguição que parecia não ter fim, chego aqui e não sei o que fazer. Tanto tempo livre e tão pouca ideia do que fazer. Com a dedicação de um devoto entreguei minhas energias a algo em que acreditava e, agora, sentindo-me leve como uma pena, resolvo descansar.
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No entanto, o descanso não dura muito. O sangue jovem a fluir pelas veias mostra-me que estou vivo e ficar parado não é solução para nada. Ainda menos para esquecer. Esquecer olhos e olhares, bocas e beijos apaixonados, o perfume impregnado na roupa depois de um dia todo junto. Momentos que permanecerão por algum tempo gravados na memória.
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A saída foi me entregar a uma nova missão e pela primeira vez em meses eu sabia e sentia que, nessa nova persecução, eu não precisaria de você. Talvez jamais volte a precisar. Pode demorar. Mas será pra melhor. Porque você sabe o tempo que fiquei esperando e acreditando, e mesmo assim você me arruinou. (Ou talvez eu tenha deixado você me arruinar).
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Então, por favor, faça um favor a nós e diga a sua mãe a verdade. Diga que não você não é e nunca foi uma santa. Diga que é uma devoradora de corações solitários. Conte o número de vezes que seduziu e deixou o outro ali, entregue, inerte por só pensar em perder você, a quem ele nunca teve e nem terá.
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Há pouco tempo eu era o homem do momento e agora o que sou? O que somos? O que fomos? Momento breve não é mesmo? Não existe mais bom dia, o café feito na hora e os biscoitos caseiros para acompanhar. Só existe um longo e triste “diga adeus” ecoando em minha mente. O que restou depois da queda foi essa terra seca e fria dos pequenos corações partidos. Infértil e improdutiva, provocando o meu êxodo, a minha saída para uma nova busca. Um novo destino.
Um novo começo.
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Viajando fora da estrada, matando tempo à base de “comprimidos de alegria”, sigo gritando como louco “leve de volta! Leve de volta os quatro corações partidos que você deixou para trás, sem serventia, estéreis”. Grito e ninguém responde.
Os que me conhecem há tempos, preocupados com a minha ensandecida loucura tentam argumentar: “mas ela só tem 22, o que você esperava?”. Eu me recuso a acreditar que é imaturidade. Eu não escuto. Não quero escutar. Faço-me de surdo. Eu não quero ouvir nenhum outro som além da sua queda iminente, Miriam.
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Deve ser tudo um sonho. Melhor, um pesadelo. Talvez eu esteja equivocado e tudo o que vivemos não passou de mera invenção da minha mente carente e romântica. Contudo, no momento, eu sou só mais um coração partido desejando coisas que jamais desejaria pra você. Me desculpe.
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Gostaria de poder deixar no passado todo o mal que você me fez, ou que penso que tenha feito, e separar apenas os momentos bons. Lembrar, por exemplo, de quando estávamos naquele pequeno quarto da casa dos seus pais, ninando sua nova sobrinha, Rosie, com sua canção de dormir. Você lembra disso? Lembra desse dia? Nós dois, felizes, adormecemos no sofá observando aquela pequena criaturinha dormir. Angelical.
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Uma lição que eu ainda não aprendi.
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Ainda.
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Quebrado e ainda assim pensando em você, afundando rapidamente num oceano de sentimentos e pensamentos, desejo desesperadamente que alguém me acorde. Olhar para o lado, encontrar um sorriso e dirigir-me a ele com um “seja meu alguém, fique comigo e me ajude a sair desse abismo no qual eu caí”. Mas nada acontece e eu continuo caindo.
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E quando eu acordo, poucas coisas me mantém de pé. No meu querido país, por exemplo, o sol não gosta de você. Então, o jeito que você encontrou para continuar sobrevivendo é permanecendo nos espaços escusos da minha mente ou até mesmo caminhando por becos vazios e escuros.
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Talvez não seja tarde demais pra perceber que o escuro não é meu amigo e que estamos separados por caminharmos por lugares tão diferentes.
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O que eu sou pra você? O que fui pra você? Fui aquelas palavras doces que pronunciei ao pé do ouvido quando vimos o nascer do sol? Ou aquele que quando de manhã, ainda de pé depois de uma noite de festas, segui o caminho mais longo para casa com você, porque você queria ter mais tempo para apreciar a brisa fria da manhã? Ou eu sou, fui, aquele que espontaneamente disse que a coisa mais linda já fora vista no mundo era você?
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Eu fui um sonho ou um pesadelo?

Esqueça. A culpa não é sua. Não sei por quê demorei pra perceber que ambos estávamos acima do chão, novamente em lugares opostos, eu com os dedos dos pés firmes na terra e você flutuando inalcançável. Relutante eu sentia que as coisas estavam diferentes. Pensava, “por favor, esteja aqui pra me amar, porque você me torna humilde, me faz querer ser alguém melhor”. Mas pra quem? Você nem notava. Em meus piores pesadelos eu estava na cidade do carnaval, olhando ao redor, procurando por algum sinal de você, rastejando sem forças e não encontrava nada.
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Eu não sinto nenhuma saudade sua, agora.
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Agora.
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Depois de sete anos vivendo com um coração gelado, eu não sinto mais a sua falta. A louca vontade de encontrá-la em cada canto não existe mais. Embora certas lembranças ainda façam com que eu acabe me sentindo do mesmo jeito, mas não dura muito. O longo dia acabou. O rouxinol canta durante um voo para baixo e sinto que estou bem, posso ver o céu e voar também. Atire na lua e flocos de neve cairão sobre a cidade. A música da pintora, que vive ao lado, preenche os meus ouvidos, me excita e diz que eu não sou mais uma estrela solitária.

Sinto que, agora, depois de tanto tempo, quando você resolver ligar – se resolver -, e dizer “tenho que te ver novamente. Venha embora comigo”, como em muitas noites eu ousei imaginar, vou responder “não”.

A proximidade de você é tóxica, viciante e eu sou só mais um viciado que acredita estar curado. Repito para os outros, diversas vezes, que está tudo bem, que um olhar a mais não fará mal. Mas faz. E por isso eu evito. E continuarei evitando. Porque eu sei , eu senti, a dor da queda. Foi difícil recolher e reunir os pedacinhos dos pequenos corações partidos. Sei também que não é bom se sentir em casa quando as coisas não andam bem. É perigoso se acomodar. Então, por favor, venha comigo, vou te mostrar que não é tarde para perceber que não somos nada além de estranhos agora.
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Ordem de aparecimento:
The Fall
Little Broken Hearts
Not Too Late
Feels Like Home
Come Away With Me

Conto minado

Ela havia sido criada para ser uma princesa, dessas que atuam representando o reino. Presa em um castelo imenso, abarrotado de móveis nunca utilizados, lareiras que disfarçam a cara fria e sombria dos cômodos, criados por todos os lados e incontáveis ambientes para se perder, a nossa princesa, de olhar jovem e curioso, buscava frestas por entre as pedras frias e mudas daquele lugar gótico. Queria ver o que existia além das muralhas e dos bosques construídos para impedi-la de ver além do permitido.

Apesar da rígida criação, nossa heroína lutava bravamente para enxergar além do que lhe era entregue mastigado. Ela sentia que nascera para ser grande, mas talvez não para o que eles acreditavam ser o melhor, nem para casar-se com algum príncipe almofadinha, nem para cuidar de nenhum palácio.

No seu aniversário de 16 translações solares, a jovem foi convidada a conhecer o vilarejo próximo ao castelo, a fim de fazer sua primeira aparição pública e conquistar a simpatia dos súditos. Ela sabia o motivo de tanta preparação – ao conquistar os camponeses do vilarejo, nossa princesa estaria a um passo apenas da próxima tarefa: o casamento para selar a paz.

Por noites incontáveis, a jovem se perguntou como a paz poderia ser mantida por algo tão frágil quanto o matrimônio. Como ela, sendo tão nova e tão imatura seria capaz de entrar de cabeça em um relacionamento que não foi escolhido por ela. De onde viria o amor, o respeito e o cuidado para com o próximo? Obrigações morais e familiares não seriam suficientes para manter esse acordo.

Ao dirigir-se ao lugarejo, pensou em mil e uma maneiras de fugir de tal compromisso. Metade das fugas terminariam com ela sendo pega pelo guarda do rei, um quarto com ela morrendo de fome na floresta e a outra parte ela nem cogitou imaginar. Pensou, inclusive, em pedir ajuda aos camponeses, no entanto, a probabilidade era a de acharem que ela estava sendo mimada e egoísta.

Quem aceitaria que uma princesa, tendo tudo (ou quase) ao alcance das mãos, estaria insatisfeita com a vida de luxo, conforto e riqueza? Quem poderia enxergar tristeza nos olhos de menina sonhadora.

Perdida em tantos pensamentos, mal viu que já estava na praça da cidade.O chefe da cavalaria abriu a porta da carruagem e ofereceu a mão para que ela descesse e viesse ao encontro dos súditos para cumprimentá-los.

Sorrindo eles sorriram, acenando eles acenaram, reverenciando eles reverenciaram. Que loucura. Como eles poderiam se submeter de tal forma à alguém que acabavam de conhecer? Qual a garantia de que seria, de fato, a princesa? Será que era por conta da presença da guarda e da carruagem? O que aconteceria a eles caso não respondessem positivamente às suas ações?

Em meio a tantos pensamentos, Valentina entrou em pânico. Ela pode ter sido criada e educada para exercer funções e sorrisos, para obedecer e ser servida, assim como para casar com quem quisessem que ela se casasse, mas isso nunca a faria feliz, nunca.

Em choque, solicitou um lugar para sentar-se. Os guardas a conduziram a uma pequena casa de tijolos a vista e jardim bonito e bem cuidado. As janelas de molduras verdes escuras contrastavam com as flores no peitoril. Uma senhora de uns 90 anos estava sentada em uma cadeira velha de balanço, quando a princesa e parte dos soldados que a acompanhavam entraram de súbito na residência.

– Perdoe-me senhora! Precisamos de sua casa para a princesa. Ela está indisposta por conta da viagem e estamos solicitando a sua moradia para o seu devido repouso. – disse o chefe da guarda.

Valentina, que encontrava-se mesmo indisposta, ficou estupefata com tal atitude e justificativa dada por aquele homem. Em nenhum momento ela mencionara o motivo de seu mal estar. Sentiu-se ainda pior pelo modo com que dominaram a moradia daquela senhora. Ela jamais quis causar desconforto a alguém. Aquilo a incomodava mais do que a indisposição.

– Desculpe-me, senhora! Não quero causar nenhum incômodo, a guarda só veio me deixar sentar um pouco e já está de saída, não é mesmo, sr. Chefe da Guarda?!

Com um olhar de desaprovação o homem alto e robusto, conhecido como Nikola, deixou a casa a contragosto e dirigiu-se à praça central.

– Estaremos à espera de Vossa Alteza no lado de fora.

Com doçura, Valentina aproximou-se da senhorinha daquele lar invadido, buscou suas mãos e, tendo as trazido junto ao peito, pediu inúmeras vezes perdão.

– Não se preocupe, princesa, está tudo bem – disse a mulher de cabelos brancos como a neve.
– Não, não está. Com que direito eu invado o seu lar e o domino com a presença fantasmagórica dessas sombras que me perseguem? Com que direito eu tomo um lugar que é seu por direito e tiro a sua paz? – chorou copiosamente, caindo de joelhos em frente à senhora.
– Vossa Alteza é dona de todo o reino, como eu poderia negar o seu ingresso ao seu próprio lar?

Tomando consciência daquelas palavras tristes, mas tão docemente pronunciadas, Valentina sentiu-se ainda pior. Ela já tinha tanto. Um lar no castelo, com um quarto que deveria ser do tamanho daquela casa, por que ela precisaria de todo o resto?

Segundo o rei e a rainha, tendo as coisas em seu poder eles teriam o controle sobre as ações da população e a vida, assim, poderia seguir em paz. Mas que paz era essa que só valia para os grandes? Que paz pode ser verdadeiramente paz quando o próximo não tem seu próprio espaço?

A senhora parecia ler ser seus pensamentos, pois logo num olhar carinhoso disse à menina:

– A culpa não é sua, minha querida princesa! O mundo é que tem andado torto. Às vezes a vida coloca um peso sobre as nossas costas, mas não somos obrigados a suportá-lo. Lembre-se, sempre existem outras opções, cabe a você escolher.
– Existe mesmo? Por que eu não as enxergo?
– Porque você não quer ver. Está cega.
– Cega? Como cega? Estou te vendo agora.
– A cegueira não é só dos olhos, mas também da alma.

Confusa, a princesa tentava processar aquelas novas informações, a fim de entender o que a senhora quis dizer com tudo aquilo. Pra quem viveu sempre uma semi-vida, era difícil processar coisas que não lhe eram entregues de forma resumida. Tudo era tão processado e entregue à ela mastigado que ela nunca precisou se preocupar em questionar nada. Menos de um dia e a vida já se mostrava tão diferente.

– Desculpe, Vossa Alteza, não quis ser indolente, muito menos intrometida. Só pensei que você quisesse uma outra visão das coisas.

Que visão? Ela ainda não compreendia o que ela havia tentado dizer com aquilo que mencionou sobre “cegueira da alma”. Como ela poderia voltar a enxergar? Isso seria possível?

– Senhora, como posso voltar a ver?
– Minha querida, o primeiro passo você já deu e agora é só continuar caminhando.
– Mas para onde?
– Se continuar perguntando continuará nesse estado. Para onde você quer ir?

Era a primeira vez que alguém perguntava de forma tão sincera o que e para onde ela gostaria de ir. Tão inédito que ela não soube o que responder. A vida toda havia alguém ao seu lado orientando o que ela deveria fazer que agora ela não sabia o que queria. A única coisa que conseguiu fazer aquela hora foi pedir que a guarda esperasse do lado de fora. Mas e aí? Qual seria o próximo passo?

– Eu quero descobrir quem eu sou.

A senhora sorriu e sentiu que não precisava dizer mais nada. Valentina esta a caminho de ter uma visão ampliada da estrada que sempre esteve a sua frente, só esperando o próximo passo. Um novo jeito de caminhar mostrava-se para aqueles olhinhos brilhantes e cheios de vida. O que estaria ao seu alcance ela nem imaginava, mas isso não era importante também. O objetivo era descobrir o que havia de verdadeiro dentro de si, qual era a sua verdadeira essência. Será que ainda haviam partes intocadas dentro de si? Ela deveria expulsar tudo o que, durante anos, as pessoas disseram que era verdadeiro? Ela saberia separar o falso do verdadeiro? Não sabemos. Só sabemos que ela deu o primeiro passo e está buscando por ela.
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