Em seus olhos…

“Causar emoção, reorganizar as coisas, traduzir o introduzível, registrar o inexistente, 
dar cores à rotina acinzentada do cotidiano e tudo mais o que se pensar 
que acrescente à aventura humana é poesia”.
Martha de Medeiros

De alguma forma o dia cinzento e frio começou a ganhar vida quando vi nos olhos dele o quanto os caminhos que estávamos seguindo eram belos e cheios de alegria. O sol nasceu, aos poucos o orvalho da manhã evaporou e a umidade percebida no ar encheu os pulmões de algo inexplicavelmente bom e abasteceu os nossos ânimos por uma longa temporada. Eram os dias primaveris desajustados, as chuvas de verão antecipadas, que cobriam os jardins com vida vinda do céu, alguns arco-íris e regava plantas e pessoas. Estas que por vezes punham-se a correr e por outras brincavam nas pequenas poças que formavam-se nas calçadas esburacadas da cidade. Tínhamos um tempo bom, apesar de a meteorologia insistir em dizer que o céu estava entre nuvens. A qualidade dos dias não era medida pelas gotas vindas do céu ou pelos raios de sol. Medíamos pela intensidade da relação que construíamos com as pessoas próximas a nós. Isso que importa de verdade. Os laços invisíveis entre duas ou mais pessoas. Era assim que transformávamos dias cinzas em dias ensolarados, fortalecendo o lado humano, sendo gratos e ajudando o próximo. Era isso que o que eu notava nos olhos dele quando começava um novo dia, eu via bondade e uma vontade enorme de ser e fazer melhor.
.
Anúncios

Sobre utopias

Em divagações noturnas percebo-me assustada com o rumo que algumas coisas tem tomado por aí. Inversão de valores, desrespeito, rudez, arrogância e outras características negativas que me fazem imaginar um outro mundo.
Utopiar é querer tocar o céu ou encher os bolsos de nuvens branquinhas e sair por aí navegando feito pássaro. 
É querer abraçar o mundo e ter apenas duas mãos, dois abraços, mas, mesmo assim, com um sorriso ou uma palavra caridosa conseguir ajudar o próximo.
É brincar de contar estrelas sem se importar se um dia se chegará ao fim da contabilidade estelar.
“É treinar ser gentil em vez de ter razão”. É praticar bondade em todos os aspectos da vida, não apenas com aqueles que somos próximos. É lembrar que cada um tem sua responsabilidade e importância no andamento da vida. Ninguém é melhor do que ninguém.
Utopiar é sonhar com um mundo bom, honesto, justo e digno para todos. Pena que para encontrarmos tudo isso precisemos idealizar, encontrar no irreal qualidades que parecem ter sumido do cotidiano.
É errado querer encontrar o melhor caminho, o melhor ambiente de trabalho ou o ambiente familiar mais amoroso? É errado desejar que as pessoas sejam boas umas com as outras? É irracional querer um mundo mais respeitoso? 
Tocar a nuvem pode ser bastante difícil, mas será que é tão difícil assim estender a mão ao próximo?
.

na minha estante: Os miseráveis – Livro I

Depois de assistir o musical algumas vezes no cinema e discuti-lo algumas boas vezes com os meus amigos, cansados de me ver só me pautar na história das telonas, meus melhores amigos me presentearam com essa preciosidade. Os Miseráveis da Cosacnaify, perfeito! A seguir segue um pequeno relato da minha leitura do primeiro livro da coletânea.
——
Depois de 438 páginas de muita descrição histórica, geográfica e emocional, terminei o primeiro livro de Os Miseráveis. Quando digo muita descrição, não digo de forma negativa, toda a exposição desses fatos, lugares e personagens é importantíssimo para a construção desta incrível história.
O livro I de Os Miseráveis é o da personagem Fantine. No entanto, são necessárias cem páginas de contextualização até que nós, leitores, a conheçamos.
Em suas primeiras páginas, Victor Hugo, o admirável narrador dessa história, nos apresenta o Bispo de Digne, um dos personagens mais carismáticos que encontrei nesse livro, até o momento. Acredito que eu tenha me admirado com este personagem por ele fugir do senso comum, por ele ser um representante religioso que realmente parece entender a que veio. De forma humilde acolhe a todos e sempre tem um pensamento inteligente e um sentimento gentil e generoso a compartilhar.
Depois de algum tempo convivendo com a filosofia do Bispo, conhecemos Jean Valjean, o protagonista dessa narrativa. E tenho medo de dar muitos spoilers falando dele. O meu medo em falar de Jean Valjean devesse ao fato de que muito das características primárias do personagem denunciam a linha de pensamento de Victor Hugo e como ele constrói o enredo. Suposição minha. 
Mas vamos aos fatos que são conhecidos por quem viu o filme. 
Jean Valjean, em tempos de crise na França, não tinha mais dinheiro e sua família passava fome. Para dar de comer a seus sobrinhos, danificou o patrimônio de outrem e roubou pão. Foi preso. Sua pena: cinco anos de trabalhos forçados nas galés por roubar um pão. E começa a sua desventura. Ao longo do cumprimento da pena, depois de várias tentativas de fuga, Jean Valjean cumpre 19 anos de prisão por roubar um pão e fugir. Solto, vaga em busca de algo que lhe traga sentido de novo.
Esta é a parte que me faz pensar em quão errada é a justiça dos homens. E acredito que foi nesse trecho também que me dei conta de quão contemporâneo é este livro. Portanto, leia!
Depois de acompanhar um pouco mais do sofrimento de Jean Valjean, o nosso ex-forçado, conhece o Bispo e de alguma forma sua vida começa a mudar. Por meio dessas transformações, uma pequena cidade também transforma-se e então conhecemos Fantine. Uma moça jovem, que deixou a paixão enganá-la e que tão nova é mãe solteira. 
Fantine, assim como muitos dos personagens desta história, tem sua vida transformada e é renegada à parte miserável da sociedade. Fazendo de tudo para oferecer uma vida digna à filha Cosette, aos poucos vai minguando. É quando conhecemos Javert. Um oficial da polícia que por prezar de mais pela justiça e ordem esquece do lado humano e acreditando estar fazendo o certo escolhe de olhar o próximo com um olhar de caridade.

“(…) Javert, em sua formidável felicidade, era digno de lástima, como todo ignorante que triunfa. Nada tão pungente e terrível como aquela figura em que se mostrava o que poderíamos chamar de lado mau da bondade”. (página 427)

Penso que para não estragar o desfecho deste Livro eu deva parar minha narração por aqui. Mas acredito que, para quem chegou até aqui, pode ser que tenha aparecido uma vontadezinha de conferir mais de perto esta história. Eu digo, até o momento não me arrependi de começar a acompanhá-la.
Nota: ★ ★ ★ ★ ★ 
Autor: Victor Hugo
Tradução: Frederico Ozanam Pessoa de Barros
Editora: Cosacnaify
Ano: —-

na minha estante: Os fantásticos livros voadores de Modesto Máximo

Conheci a história do sr. Modesto Máximo (ou Morris Lessmore) por meio do vencedor do Oscar 2012 na categoria curta-metragem de animação “The fantastic flying books of Mr. Morris Lessmore“. 
Apaixonada pela história, em um certo dia, fuçando sites de promoções encontrei essa preciosidade que é o livro de William Joyce, que inspirou o curta. Além da história ser linda, o livro é bem acabado, com capa dura e ilustrações maravilhosas. Um bom livro para a coleção não só dos Pequenos Leitores 😉
Nesta história conhecemos um pouco do mundo de Modesto Máximo, um homem apaixonado pelas palavras e que a cada dia escreve, literalmente, uma nova página no livro de sua vida. No entanto, em um dia qualquer vê sua vida transformada por um imprevisto. Joyce apresenta por meio do texto e dos desenhos como encaramos certos momentos e nossas vidas e como podemos vê-la por uma nova perspectiva. Modesto Máximo, um homem que sempre gostou do mundo das histórias, tem a sua modificada, mas não sabia como lidar com o novo caminho a seguir. Mas, ao longo do tempo aprendeu que novas histórias são possíveis de serem escritas e que podem trazer um sopro a mais de vida para uma vida pacata que se levava até então.
 Nota: ★ ★ ★ ★ ★ 
Autor: William Joyce
Ilustração: William Joyce e Joe Bluhm
Tradução: Elvira Vigna
Editora: Rocco – Pequenos Leitores
Ano: 2012

Encalço


E parecia que tudo era tão possível, tão palpável. Era como se cada pessoa que eu tocasse deixasse em mim uma cor. Um sentimento impresso na pele tal qual tatuagem. Um festival de cores e significados que me acompanhariam por onde eu fosse. 
E eu vou longe… seguindo caminhos extraordinários, encarando o mundo por um novo panorama e carregando comigo uma infinidade de outros e outras que me ajudam a espantar aquilo que não é bom. 
Porque agora é assim, se não for bom, se não faz bem, se não acrescenta nada, comigo não vai. Fica perdido por alguma das estradas que passei, feito objeto inútil que para em uma lixeira qualquer, mas que em mim não cola mais.
.

Sopro

a ventania de primavera levando para longe os últimos maus espíritos de “outubro”(…)”.   Caio F. Abreu

Um vento frio no rosto e pouco agasalho para conseguir algum conforto. Um mês que se vai, outro que chega e nada parece diferente. O vento parece querer me dizer alguma coisa, talvez seja “ei, acorda, se protege”; Mas eu, desatenta e descuidada não o entendo e fico ali. 
Paralisada. 
Então o frio me acorda e volto a encarar o desconhecido a minha frente e decido que um passo precisa ser dado.
Um passo.
Outro.
Não parece tão difícil.
Aos trancos e barrancos seguimos em frente, sem saber para onde ir ou onde chegar. O importante é não ficar parado. Não é o que eles adoram repetir? Em um mundo marcado pela pressa e pelo excesso de informação, meditar é pecado. Silêncio e introspecção são perda de tempo.
Então eu continuo. Tropeço. Caminho. Sigo sempre em frente que é para não ser atropelada ou esquecida por aqueles que desaprenderam a arte de desencanar, de simplesmente ser, estar, não ter.
.