Quando alguém torna-se inalcançável

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Como pássaros que por um breve momento estão ali, no fio de luz ou voando alegremente entre as flores, e que em segundos abrem as asas e partem em direção a novas experiências, novos sonhos e desejos, outras realizações, outro clima, uma estação diferente, inédita.
Como o rio que segue o seu caminho, desviando obstáculos, contornando pedras e galhos, levando a vida consigo e mesmo assim sempre mudando: amadurecendo, crescendo, aprofundando, sem necessariamente criar raízes tal qual as árvores.
Pessoas pássaros e pessoas rio, quando se vê já não estão mais lá, já foram, seguiram em frente, escolheram seus caminhos e correram atrás, distanciando-se do que – ou quem – ficar para trás. 
Ninguém tem mais notícias. Quem sabe até se perderam, ou partiram para uma temporada na antártica ou até mesmo no ártico, desaguaram no oceano e navegaram sem destino certo. Não importa. Partiram, evaporaram, se desfizeram do mesmo modo que dentes de leão se desfazem ao irem de encontro à força de um vento um pouco mais intenso.
E você desperta: alguém que era fechado em si, num piscar de olhos descobriu um mundo novo dentro de si e abriu as portas, escancarou as janelas e se foi – inalcançável por aí -, sendo o que sempre quis ser: um pássaro, um rio ou até mesmo um dente de leão.
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Enquanto não se pode queimar memórias

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Manhã de domingo, quase dez horas e só conseguia pensar em uma coisa, ou melhor, em alguém: nele. O dia seguia, almocei, saí e aquela pontinha dele continuava se mostrando diante dos meus olhos e uma lembrança da sua voz brincava em meu ouvido. Os meus amigos me dizendo: “mas você ainda não o esqueceu?” e eu respondendo mentalmente, para qualquer um que quisesse tentar ler meus pensamentos: “e tem como? porque se tiver, eu quero a fórmula mágica para tirá-lo da minha memória”. 
Mas não, ninguém me responde, todos me olham e não dizem mais nada. A conversa muda. Ninguém entrou na minha mente. Ninguém compreendeu a minha reação quieta, o meu medo de ter tudo aquilo martelando a cabeça. E pior, sem que eu possa fazer alguma coisa. 
É muito fácil dizer “esqueça-o”, eu mesma já disse isso algumas vezes tentando consolar alguém, mas é muito difícil apontar o caminho certo, direcionar a outra pessoa a esquecer alguém. 
Nós podemos queimar lembranças, recordações, cartões postais e bichinhos de pelúcia. Podemos queimar cartas, bilhetes de cinema e recadinhos de geladeira. Queimamos os presentes de dias dos namorados, a agenda onde anotávamos os compromissos, e as datas importantes – o primeiro beijo, a primeira viagem -, queimamos os presentes de aniversário e os de Natal. 
Mas não podemos queimar as idas ao parque, o primeiro filme que não vimos no cinema, o primeiro jantar, a primeira festa como namorados, nem as idas às casas dos parentes. Não queimamos o que vivemos e fizemos juntos, isso sempre será parte do que fomos e fizemos, e talvez seja só isso. O momento já foi e agora a história é outra, mas porque insistimos em permanecer presos a isso? Enquanto não se pode queimar as lembranças vividas, que as aproveitemos para, pelo menos, pensar e agir de outra forma. Quem sabe assim encontremos um novo alguém para conservar na memória.
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Alguém para chamar de…

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meu? Não, não pra chamar de meu, alguém para simplesmente chamar. Alguém para quem se possa sussurrar segredos, medos e desejos, que não se importe de ter os ouvidos invadidos por palavras e também por silêncio. Não, não quero alguém para chamar de meu, quero apenas compartilhar sonhos e projetos, alguém com quem eu tenha alguns desentendimentos, mas que no final do dia possamos deitar a cabeça no travesseiro sabendo que está tudo bem. Alguém que conheça os meus choros e os meus sorrisos e que entenda principalmente do meu olhar – muitas vezes é ele quem diz tudo. Quero alguém para chamar de apelidos bobos e nomes sérios quando forem necessários, alguém que venha mesmo quando eu diga que não precisa vir, que tá tudo bem, alguém que saiba ler as entrelinhas e especialmente saiba ler o meu silêncio. Alguém que saiba quando é a melhor hora pra chegar e também a hora de me deixar sozinha. Alguém que possua braços fortes para me segurar e abraços que se encaixem em mim, que não me façam mais querer largar. No fundo nós só queremos alguém que nos chame também.
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E quando somos um só

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E se de repente eu não te amasse mais? O que isso significaria para mim? E o que isso seria para você?Talvez eu vagaria pelas avenidas, sob a parte da miséria e então esconderia minha cara e meu coração na sarjeta, quem sabe até em um copo de cachaça barato. Não é fácil levar uma vida solitária. Depois de tanto vagar sem direção, tudo o que conseguiria expressar seria, “por favor, não me ignore, eu ainda estou vivo, apesar de…”. 
Talvez eu vagaria por salões iluminados, cercados por inúmeras pessoas de sorrisos falsos e conversas fúteis tentando encontrar alguma companhia. E, provavelmente, no fim, eu ainda pensaria, “por favor, não me ignore, talvez eu precise do seu perdão”. E se hoje nos tornamos estranhos? Você me reconheceria em meio a multidão? Você poderia escutar minha tristeza, meu choro sem esperanças? 
Talvez eu só esteja procurando um salvador, alguém que me resgate da profundeza na qual me escondi, e continuarei caminhando sob este céu tempestuoso que ameaça cair. Ou quem sabe este seja apenas mais um pesadelo, então, aproxime-se mais de mim e me abrace, não me deixe me sentir sozinho nesta cama, nesta noite fria e escura. Por favor, não me ignore, eu ainda estou aqui.

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Herança

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O que herdei foi um jeito inconsciente de franzir o cenho; um gosto absurdamente grande por bolo de chocolate; um carinho especial por cães; uma paixão arrebatadora pela escrita; um gene específico dedicado à literatura; uma vontade avassaladora de pertencer; pés que buscam uma nova jornada; olhos que procuram o melhor no próximo; ouvidos atentos ao som do coração, seja o meu ou o teu; braços que se expandem e podem abraçar o mundo; mãos que cuidadosamente tocam o outro; o que herdei foi uma mistura de pequenas grandes coisas, que me movem e me fazem sentir o quão incrível a vida pode ser.
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De um ou de outro

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eu sei que de um jeito
ou de outro
continuarei vivendo,
mas
seria tão bom 
se fosse da melhor forma possível.
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