Desafio III – Aos 90

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Olá, eu sou a senhora Weber, tenho 90 anos e acredito que essa história aconteceu em um dia qualquer de novembro, há uns 65 anos atrás.

[MEMÓRIA] O calor estava impossível de suportar. E sabe, para moradores do sul do Brasil, na época, o verão era realmente uma agressão, visto que estávamos acostumados às temperaturas frias. Beber muita água e ficar na frente do ventilador não era o suficiente, a minha vontade era mergulhar em uma piscina de sorvete, dá para imaginar uma coisa dessas? Me sentia como a senhorinha do filme do Robbie Willians.
– Não vó, acho que o ator se chama Robin Willians.
– Isso mesmo, o que era médico. Bom, onde eu estava mesmo? Ah sim, mergulhar numa piscina de sorvete. Mas infelizmente isso não era possível. As únicas alternativas eram tomar um banho estupidamente gelado ou me trancar numa sala com ar condicionado. Mas eu fiz melhor que isso. Arrumei uma malinha e saí de casa para uma aventura juvenil, sabe, dessas que vocês fazem hoje em dia, mas sem essa de pular de pontes ou aviões. Eu peguei um ônibus e fui para uma cidade vizinha, conhecida por suas águas geladas. Cheguei a um recanto, troquei de roupa e caí rapidamente na água. Ela estava geladíssima, como eu esperava, nem liguei para o choque térmico. Havia caminhado muito no sol para aproveitar aquele momento e nada me impediria de fazer o que eu tinha que fazer: me refrescar. Passei o dia todo naquelas águas. No final eu estava tão enrugada, não como hoje, sinais de anos da minha vida, mas enrugada de ficar tanto tempo naquela fonte de juventude e prazer. Voltei para casa no fim do dia realizada e com um baita resfriado, levei uma bronca em casa, mas quem se importava, eu estava feliz. Você já se sentiu assim? Feliz por algo tão simples? Pois era isso o que eu sentia naquele dia.
– É um momento mesmo raro não é vovó, nos dias de hoje é preciso tanta coisa para nos satisfazer né?! Eu não sei se teria ficado tão feliz quanto a senhora.
– Ah minha querida… Será que eu vivi isso ou é apenas mais uma brincadeira da minha cabeça?

“Desafio novo: pense que vc já está velha, uns 90 anos; Aí lhe perguntam qual foi o dia normal mais feliz da sua vida. O desafio é responder criando algo que ainda não viveu, mas que gostaria que estivesse entre suas maiores boas lembranças; Boa sorte”. (DANILO, Marcel)

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Observação

“A sensualidade é a mobilização máxima dos sentidos: 
um indivíduo observa seu parceiro intensamente, 
procurando captar seus mínimos ruídos.”
Milan Kundera
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E conhecia cada pequeno detalhe do seu caminhar e também seus variados tipos: o andar noturno, na ponta dos pés, para não acordá-lo cada vez que resolve assaltar a geladeira ou ler um livro numa noite insone; o andar de inverno, meio que deslizando com as meias no piso de madeira e rindo cada vez que ameaça cair; o andar de salto alto, meio desajeitado no começo e extremamente elegante depois de voltar a praticar; e tantos outros passos e pulos que ele conhece de cor e salteado. 
Conhece muito bem seu gosto para roupas e também o motivo de escolher cada uma delas durante os dias que vão passando: um camisetão folgado, usado principalmente nos dias de calor, nos quais não quer se preocupar com nada, a não ser que seja qual filme ou comida vai escolher; camiseta e calça jeans, quando sair de casa não é uma escolha, e sim uma obrigação, ou quando não tem tempo para pensar em algo mais elaborado; vestido, quando é verão e o calor é de matar ou quando é inverno e ela quer se produzir um pouco mais, principalmente quando quer ser notada ou simplesmente se sentir diferente, como um personagem. 
São tantos detalhes, e ele grava cada um deles no disco rígido da sua cabeça, que por sinal às vezes é muito dura, mas que nem por isso deixa de ser sensível e notar que, naquela noite, quando ela estava apavorada e ele foi ajudá-la a se acalmar, ela deu um daqueles sorrisos de orelha a orelha e dormiu em seus braços ou quando ele disse que ela não deveria fazer nada em situações de estresse, no máximo dormir, ouvir música ou tomar um banho relaxante.
Falando em sorrisos, ele gosta de memorizá-los: sorriso encabulado ao acordar descabelada; sorriso com risada quando erra alguma coisa ou vê algo divertido na TV; sorriso tímido quando é elogiada; sorriso malicioso quando pensa em pedir alguma coisa; sorriso de pensamentos que voam longe e de repente se percebe na Terra novamente; sorriso inexplicável quando ele a faz rir – o favorito. 
São tantos detalhes, e ele se importa sim, com cada um deles, grava todos para que, mesmo longe, ele possa mantê-la na memória.
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Deleites

“A vida nunca é perfeita, cada um tem um jeito de acalmar os nervos”. 
O fabuloso destino de Amélie Poulain

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Cheiro de grama cortada. Chuva no asfalto quente. Terra molhada. Perfume. Chocolate derretendo lentamente na boca. Chocolate quente. Café com leite. Cheiro de café exalando na cozinha. Café com um bom livro. Chá quente. Chimarrão. Banho demorado. Tomar banho de chuva, de mar, de rio, de cachoeira. Andar descalça. Viajar. Caminhar. Comprar livros. Cheiro de livros novos. Ler. Escrever. Dormir. Passar o dia de pijamas ou debaixo das cobertas. Yoga. Meditação. Lingerie nova. Ouvir música. Dançar. Dirigir. Jardim cheio de árvores e flores. Brincar com os cachorros. Pequenos deleites que podem animar até o dia mais difícil.
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só lá mi fá dó lá si: City and Colour

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Faz algum tempo que quero falar de coisas diferentes aqui no blog e, para inaugurar este momento, decidi começar por um dos assuntos que eu mais gosto: música.
Já aviso que não vim para falar de técnica e sim de gosto pessoal, indicação, quem sabe algum dia não possamos ter um/uma colunista (o que acha Alexandre?) por aqui para falar dessa parte, da qual eu não manjo nada.
Portanto, para falar mais de música, não apenas nas entrelinhas dos textos (por exemplo, o A mais bela, Uma dança lenta, por favor ou Call the police), decidi publicar quinzenalmente uma lista com 11 músicas, bandas, cantores e estilos que gosto.
Hoje eu os apresento o sr. Dallas Green, cantor canadense, ex-integrante da banda Alexisonfire, é o criador do City and Colour. De maneira independente, por meio do seu projeto folk City and Colour, Dallas já lançou 5 álbuns: Sometimes (2005), Live CD/DVD (2007), Bring me your love (2008), Live @ The Orange Lounge EP (2010), Little Hell (2011), a seguir você pode conferir as minhas músicas favoritas desses trabalhos, espero que gostem!

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Do latim fugire

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Se ele parece largado, desinteressado, não o culpe, ele também procura um pouco de paz e sossego, assim como você quando foge do mundo, esquece nome, sobrenome, rg e endereço, esquece telefone, computador, sinal de fumaça, só não esquece aquele livro pra se distrair. No fundo você sabe que ele também cansou dos jogos, dos dramas, das dúvidas e dos medos, resolveu arriscar fugindo para algum lugar. E você sabe que este é sempre o seu último recurso, não é do feitio dele fugir, isso é mais a sua cara, mas até ele num momento como esse precisa de tempo e espaço.
Se ele parece largado, não o culpe, ele apenas não soube o que fazer, o que dizer, o que pensar. Não o culpe, ele não soube esperar.
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e as nuvens choravam,
e os rios corriam,
e o sol brilhava,
e o trovão falava,
e os raios desenhavam,
e os ventos uivavam,
e a neve dançava,
e o mar quebrava,
e você 
nadava.
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