Love song for no one

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Cartas e mais cartas para ninguém. Papéis amassados espalhados pelo quarto, canetas sem tinta, mente sem ideias. Fico a escrever e escrever cartas para ninguém, esperando um dia, quem sabe, que essas cartas encontrem um destino. Talvez seja a Lua cheia me puxando pra cima, me fazendo acreditar em histórias de amor. Talvez seja esse céu sem nuvens que parece me dizer que tudo ficará bem, que nada de mau vai me acontecer. E então continuo aqui, a escrever cartas de amor para ninguém.

Ella
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Elas

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Às vezes uma velhinha querendo um par de pantufas e uma poltrona, 
às vezes uma adolescente provando mil roupas.
Às vezes uma xícara de chá e biscoitos,
às vezes refrigerante e cachorro quente.
Era uma, duas, três em uma só.
Era um turbilhão de emoções, desejos e vontades
aparecendo assim, de uma vez, 
movimentando e misturando
os ingredientes dentro dela.
Às vezes era uma velhinha de pijamas e óculos de leitura
às vezes menina dançando nas pontas dos pés.
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Rabisco

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Às vezes nos agarramos com tanta força a uma determinada ideia que acreditamos que se a soltarmos cairemos num profundo abismo. Ledo engano. Às vezes a terra firme está tão próxima, mas o medo faz com que nem olhemos para baixo. No fundo é importante voltar os pés e os olhos para a terra de vez em quando. Só assim poderemos construir novas bases que nos darão alguma solidez, para que não precisemos mais ficar pendurados em ideias e sim alicerçados em algo mais importante, algo que realmente nos faça querer construir novos degraus e não que nos faça permanecer com medo de dar alguns passos para trás para que possamos voltar a seguir em frente.
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Ser

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Eu já quis ser tanta coisa. Eu já quis ser arqueóloga, paleontóloga e me imaginava morando no Egito. Eu já pensei em ser bióloga e daí eu lembrei que tinha que mexer com barata e então eu pulei fora. Eu já quis ser bibliotecária só para estar bem pertinho dos livros, mas daí me lembrei da rinite, da sinusite e da bronquite e essas três não me deixariam trabalhar em paz no setor de raridades. Eu queria ser guitarrista e descobri que não tenho muito habilidade na área. Eu quis ser jornalista e fui lembrada do quão sensível eu sou e do quão triste seria que, em rede nacional, me vissem chorando a cada notícia ruim. Pensei em ser política, a Ju sempre me dizia que quando via algo relacionado a política lembrava de mim, mas aí eu fui vendo a realidade que era esse mundo e fiquei muito desanimada. Mas no meio de tanto querer ser acabei aqui, onde sempre gostei de estar, no meio das palavras, e eu sei que com elas eu poderei ser tudo aquilo que sonhei, seja no Egito ou numa biblioteca. As palavras me permitem ser e sonhar.
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Clinomania

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“Eu vou te acompanhar de fitas
Te ajudo a decorar os dias
Te empresto minha neblina
Vamos nos espalhar sem linhas
Ver o mundo girar de cima
No tempo da preguiça”
Cícero – Tempo de pipa.

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Bilhetes que ela não enviou:

“Eu te empresto essa minha obsessão por ficar na cama, a gente a divide, também o travesseiro, a coberta, a vista, tudo, e passa o dia todo tentando entender o porquê de gostar tanto de ficar assim, se olhando, se admirando, se gostando sem falar nada. O que você acha?”
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Pausas

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Era fim de tarde quando ela se sentou no fim do deck para admirar as primeiras estrelas que apareciam no céu de verão. Os pontinhos brancos em meio a algumas nuvens eram sempre novas descobertas – por mais que sempre fizesse aquele ritual quando estava cansada ou precisando de um tempo para pensar. Ele sabia que quando Ella estava querendo espaço, corria para ficar com os pés na água, lendo ou ouvindo música. Ele não ousava interrompê-la. Pelo menos não até aquele dia, quando a viu de longe, entrar na água mesmo estando escuro lá fora. Essa atitude era nova e aquilo causou certo desconforto. Ele saiu correndo de casa e simplesmente se jogou na água, mas ela estava tão tranquila, flutuava na água como se estivesse voando no céu. Estava tranquila e levou um susto quando o viu de roupa e tudo na água, olhando-a desesperado. A única coisa que lhe restou foi rir. E ele, encabulado, riu com ela. As coisas aos poucos voltavam ao normal.
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