Janelas

Como em muitas vezes, pra fugir do mundo, hoje eu fui caminhar. Olhei pro céu e vi algumas estrelas que teimavam em aparecer por trás das nuvens de poeira que fazem os curitibanos esqueceram que estrelas existem. Eram poucas. Eram tímidas. Eram brilhantes. Eram estrelas.
Mas olhar pra cima, no centro de Curitiba, nos faz notar algumas coisas, que embora sejam menos brilhantes, são bem mais numerosas, ou melhor, mais visíveis atrás do pó e das lâmpadas brancas do centro da cidade, que outrora iluminado por um amarelo nostálgico dos postes verdes, fora muito mais belo. Essas coisas não parecem muito poéticas, nem muito admiráveis, mas se pararmos pra pensar. São puros versos.
Janelas.
Sim, janelas. São buracos emoldurados no meio dos tijolos frios dos prédios impessoais. Mas impessoais são os prédios, as janelas são sentimentos. Analisar cada uma como se fosse uma história me fez imaginar mil filmes, mil músicas, mil suspiros e mil sussurros.
Janelas não são só cortinas, vidro e madeira. São luzes, sons e são quartos, salas e cozinhas. Aquela janela no final dos seus olhos pode ser a janela que a jovem amargurada pensou em transformar em algoz por cinco ou seis vezes antes de conhecer a felicidade. A janela que foi morada dos braços da senhora que toda noite, inventava uma história pra cada casal apaixonado que passava pelas ruas. Ou a janela que brilhava todas as cores, do quarto do adolescente sem esperanças que fazia festa sozinho, por medo de sair de casa e mostrar seu coração a alguém.
Foram janelas felizes e tristes. Porque felicidade e tristeza existem na vida de qualquer ser humano, e devem existir na vida de toda janela. As janelas com cortinas floridas das apaixonadas pela vida, de uma cor só das frias e decidas ou as cortinas rasgadas daquelas que já não esperam nem que as janelas se abram e as joguem ao desejado asfalto pintado de sangue. As janelas de vidros distorcidos das tímidas, transparentes das seguras, gradeados das preocupadas e quebrados das que nem olham pela janela por ter medo de ver o mundo. As janelas abertas que deixam passar as músicas de seus cômodos. Fechadas que não deixam passar nem os beijos jogados ao vento. Abandonadas que nem se lembram que um dia foram janelas e hoje são pedaços opacos das paredes.
Inventei uma história pra cada janela. E em cada uma delas eu imaginei um sorriso, uma angústia e um desejo. Inventei um motivo pra que elas existissem e junto inventei razões pra que eu continuasse ali. Fugindo da minha própria janela.
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Renan Hamann
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Medo

[…] tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo – quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação.
Texto atribuído à Clarice Lispector.