Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente

Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma…
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.


Vinicius de Moraes
Anúncios

O Louco

Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim: um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas – as sete máscaras que eu havia usado e confeccionado em sete vidas – tinham sido roubadas e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:

“Ladrões, ladrões, malditos ladrões”.

Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa com medo de mim. E quando eu cheguei à praça do mercado, um garoto em cima do telhado de uma casa gritou:

“É um louco!”.

Olhei para cima para vê-lo. O Sol beijou pela primeira vez minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo Sol, e não desejei mais minhas máscaras.
E, como num transe, gritei:

“Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras”.

Assim me tornei louco. E encontrei tanta liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
.
(Autor Desconhecido)

Humanalma

“Trabalhamos, compramos, vendemos e construímos relações sociais; discorremos sobre política, economia e ciências, mas no fundo somos meninos brincando no teatro da existência, sem poder alcançar sua complexidade.

Escrevemos milhões de livros e os armazenamos em imensas bibliotecas, mas somos apenas crianças. Não sabemos quase nada sobre o que somos. Somos bilhões de meninos que, por décadas a fio, brincam neste deslumbrante planeta.”

.

Augusto Cury